A palestra encera a exposição, realizada na escola no mês de agosto.
Na palestra os estudantes puderam conversar e compreender as peças da artista Odegine Graça.
Integrar a arte e seus mecanismos em defesa da natureza. Mostrar a integração da emoção do homem com a preservação ou destruição da natureza. Mostrar a arte para despertar e conscientizar as pessoas quanto a sua responsabilidade em preservar a natureza de todas as coisas. Você é a natureza, a natureza é você. Desperte!

Material Utilizado: plástico (garrafão de água mineral), jornal, tecido, tinta, massa acrílica, gesso, cola, pó de mármore, caixa de papelão, pedras coloridas, recortes de jornais e revistas, peças de roupas.
Sempre tolice e error, culpa e sovinaria,
Trabalham nosso corpo e ocupam nosso ser,
E aos remorsos gentis, nós damos de comer
Como o mendigo nutre a sua piolharia.
Frouxo é o arrependimento e tenaz e pecado,
Por nossas confissões muito é o que a alma reclama,
Voltando com prazer a um caminho da lama,
Crendo as manchas lavar com pranto amaldiçoado.
Junto ao berço do mal é Satã Trismegisto,
A nossa alma a ninar tão longamente invade,
Do precioso metal desta nossa vontade
Este alquimista faz um vapor imprevisto.
É o Diabo que nos move através de cordéis!
O objeto repugnante é o que mais nos agrada;
E do Inferno a descer sempre um degrau da escada,
Vamos à noite errar por sentinas cruéis.
Tal como um libertino e que beija e mastiga
O seio sofredor de velha Messalina,
Furtamos ao passar um prazer disfarçado
Que esprememos assim como laranja antiga.
Cerrado, a formigar como um milhão de helmintos,
Ceva-se em nossa fronte um povo de avejões,
E quando respiramos, a Morte nos pulmões
Desce, invisível rio e com sons indistintos.
E se o estupro, o veneno, o incêndio e a punhalada,
Não puderam bordar com seus curiosos planos
A talagarça vã dos destinos humanos,
É que nossa alma enfim não é bastante ousada.
No entanto entre lebréus, panteras e chacais,
Macacos e escorpiões, abutres e serpentes,
Os monstros a grunhir, ladrantes ou gementes,
Que são o nosso vício em infames currais,
Um existe mais feio e mais perverso e imundo!
Embora não se expanda em gestos ou em gritos,
De bom grado faria a terra só detritos
E num bocejo só engoliria o mundo.
É o tédio! – os olhos seus que a chorar sempre estão,
Fumando o seu buka, sonha com o cadafalso.
Tu o conheces, por certo, o frágil monstro, ó falso
Leitor, amigo meu, meu igual, meu irmão!
Material Utilizado: garrafas pets, caixas de leite longa vida, fios, gesso, tinta, tecidos, caixa de papelão, recortes de jornais e revistas, napa, pedras coloridas.
Obssessão.
Bosques, encheis de susto como as catedrais,
Como os órgãos rugis; e em corações malditos,
Quartos de terno luto e choros ancestrais,
Todos sentem ecoar vossos fúnebres gritos.
Eu te odeio, oceano! e com os teus tumultos,
Já que és igual a mim! Pois este riso amargo
Do homem a soluçar, todo sombras e insultos,
Eu o escuto no riso enorme do mar largo.
Como serias bela, ó noite sem estrelas,
Que os astros falam sempre claro em sua luz!
Busco o infinito negro e os precipícios nus!
Porém as trevas são elas próprias as telas,
Em que surgem, a vir de meu olho, aos milhares,
Seres vindos do além de rostos familiares.

Material Utilizado: garrafas pets, meias de nylon, peças de roupa, boneca de plástica, pulseira de semente, tinta, gesso, caixa de papelão.
Elevação
Por sobre os pantanais, os vales orvalhados,
Por sobre o éter e o mar, por sobre o bosque e o monte,
E muito além do sol, muito alem do horizonte,
Para além dos confins dos tetos estrelados,
Meu espírito, vais, com toda agilidade,
Como um bom nadador deleitado na onda,
Sulcas alegremente a imensidão redonda,
Levado por indizível voluptuosidade.
Bem longe deves voar destes miasmas tão baços;
Vai te purificar por um ar superior,
E bebe, como um puro e divino licor,
O claro fogo que enche os límpidos espaços.
E por trás do pesar e dos tédios terrenos
Que gravam de seu peso a existência dolorosa,
Feliz este que pode de asa vigorosa
Lançar-se para os céus lúcidos e serenos!
Aquele cujo pensar, como a andorinha veloz
Rumo ao céu da manhã em vôo ascensional,
Que plana sobre a vida a entender afinal
A linguagem da flor e da matéria sem voz!
Material Utilizado: garrafas de leite, bola de isopor, tecido, meias, papelão, tinta, gesso, recortes de jornais e revistas.
A MUSA VENAL
Ó musa de minha alma, amante dos palácios,
Terás, quando janeiro desatar seus ventos,
No tédio negro dos crepúsculos nevoentos,
Uma brasa que esquente os teus dois pés violáceos?
Aquecerás teus níveos ombros sonolentos
Na luz noturna que os postigos deixam coar?
Sem um níquel na bolsa e seco o paladar,
Colherás o ouro dos cerúleos firmamentos?
Tens que, para ganhar o pão de cada dia,
Esse turíbulo agitar nas sacristia,
Entoar esse Te Deum que nada têm de novo,
Ou, bufão em jejum, exibir teus encantos
E teu riso molhado de invisíveis prantos
Para desopilar o fígado do povo.
Material Utilizado: caixas de leite, tecidos, flores artificiais, tinta, gesso, recortes de jornais e revistas.
O Inimigo
Foi minha juventude não mais que um vendaval
Em que raro brilharam os Sóis como espelhos;
Nela a chuva e o trovão fizeram estrago tal
Que sobram no jardim poucos frutos vermelhos.
Eis que chego ao Outono do pensamento,
E usarei pá e ancinho por manhãs obscuras
Para juntar de novo o solo lamacento
Com crateras enormes como sepulturas.
Quem sabe se a flor nova que meu ser anseia
Achará neste chão lavado com a areia
O místico alimento que lhe dá vigor?
Devora o tempo a Vida, ó suprema agonia!
Se rói o coração o inimigo traidor,
Cresce por se nutrir desta nossa anemia!
Material Utilizado: caixas longa vida, tecidos, banco de plásticos, discos de vinil, pedras coloridas, chapas de radiografia, CDs e DVDs, tinta, gesso, recortes de jornais e revistas.
DE PROFUNDIS CLAMAVI
Imploro-te piedade,a Ti, razão de amor,
Do fundo abismo onde minha alma jaz sepulta.
É uma cálida terra em plúmbea névoa oculta,
Onde nadam na noite a blasfêmia e o terror;
Por seis meses um morno sol dissolve a bruma,
E durante outros seis a noite cobre o solo;
É um país bem mais nu do que o desnudo pólo
- Nem bestas, nem regatos, nem floresta alguma!
Não há no mundo horror que comparar se possa
À luz perversa desse sol que o gelo acossa
E à noite imensa que no velho Caos se abriu;
Invejo a sorte do animal mais vil,
Capaz de mergulhar num sono que o enregela,
Enquanto o Dédalo do tempo se enovela.
Material Utilizado: garrafas de leite, boneca de plástico, caixa de papelão, cesta de vime, tecidos, meias de nylon, pedras coloridas, enfeites verde de casinha de beija-flor, tinta, gesso, recortes de jornais e revistas.
LESBOS
Mãe dos jogos do Lácio e das gregas orgias,
Lesbos, ilha onde os beijos, meigos e ditosos,
Ardentes como os sóis, frescos quais melancias,
Emolduram as noites e os dias gloriosos;
Mãe dos jogos do Lácio e das gregas orgias;
Lesbos, ilha onde os beijos são como as cascatas,
Que desabam sem medo em pélagos profundos,
E correm, soluçando, em maio às colunatas,
Secretos e febris, copiosos e infecundos,
Lesbos, ilha onde os beijos são como as cascatas!
Lesbos, onde as Frinéias uma à outra esperam,
Onde jamais ficou sem eco um só queixume,
Tal como Pafos as estrelas te veneram,
E Safo a Vênus , com razão, inspira ciúme!
Lesbos, onde as Frinéias uma à outra esperam,
Lesbos, terra das quentes noites voluptuosas,
Onde, diante do espelho, ó volúpia maldita!
Donzelas de ermo olhar, dos corpos amorosas,
Roçam de leve o tenro pomo que as excita;
Lesbos, terra das quentes noites voluptuosas,
Deixa o velho Platão franzir seu olho sério;
Consegues teu perdão dos beijos incontáveis,
Soberana sensual de um doce e nobre império,
Cujos requintes serão sempre inesgotáveis.
Deixa o velho Platão franzir seu olho sério.
Arrancas teu perdão ao martírio infinito,
Imposto sem descanso aos corações sedentos,
Que atrai, longe de nós, o sorriso bendito
Vagamente entrevisto em outros firmamentos!
Arrancas teu perdão ao martírio infinito!
Que Deus, ó Lesbos, teu juiz ousara ser?
Ou condenar-te a fronte exausta de extravios,
Se nenhum deles o dilúvio pôde ver
Das lágrimas que ao mar lançaram os teus rios?
Que Deus, ó Lesbos, teu juiz ousara ser?
De que valem as leis do que é justo ou injusto?
Virgens de alma sutil, do Egeu orgulho eterno,
O vosso credo, assim como os demais, é augusto,
E o amor rirá tanto do Céu quanto do Inferno!
De que valem as leis do que é justo ou injusto?
Pois Lesbos me escolheu entre todos no mundo
Para cantar de tais donzelas os encantos,
E cedo eu me iniciei no mistério profundo
Dos risos dissolutos e dos turvos prantos;
Pois Lesbos me escolheu entre todos no mundo.
E desde então do alto da Lêucade eu vigio,
Qual sentinela de olho atento e indagador,
Que espreita sem cessar barco, escuna ou navio,
Cujas formas ao longe o azul faz supor;
E desde então do alto da Lêucade eu vigio
Para saber se a onda do mar é meiga e boa,
E entre os soluços, retinindo no rochedo,
Enfim trará de volta a Lesbos, que perdoa,
O cadáver de Safo, a que partiu tão cedo,
Para sabe se a onda do mar é meiga e boa!
Desta Safo viril, que foi amante e poeta,
Mais bela do que Vênus pelas tristes cores!
- O olho do azul sucumbe ao olho que marcheta
O círculo de treva estriado pelas dores
Desta Safo viril, que foi amante e poeta!
- Mais bela do que Vênus sobre o mundo erguida,
A derramar os dons da paz de que partilha
E a flama de uma idade em áurea luz tecida
No velho Oceano pasmo aos pés de sua filha;
Mais bela do que Vênus sobre o mundo erguida!
- De Safo que morreu ao blasfemar um dia,
Quando, trocando o rito e o culto por luxúria,
Seu belo corpo ofereceu como iguaria
A um bruto cujo orgulho atormentou a injúria
Daquela que morreu ao blasfemar um dia.
E desde então Lesbos em pranto lamenta,
E, embora o mundo lhe consagre honras e ofertas,
Se embriaga toda noite aos uivos da tormenta
Que lançam para os céus suas praias desertas!
E desde então Lesbos em pranto lamenta!
Material Utilizado: vaso de cerâmica, recortes de exposição fotográfica, tecidos, isopor, garrafas de leite, tinta, gesso, recortes de jornais e revistas.
A PRECE DE UM PAGÃO
Não deixeis esfriar tua chama!
Minha alma entorpecida aquece,
Volúpia, inferno de quem ama!
Escuta, diva, a minha prece!
Deusa no espaço derramada,
Flama que dentro em nós desperta,
Atende a esta alma enregelada,
Que um brônzeo cântico te oferta.
Volúpia, abre-me a tua teia,
Toma o perfil de uma sereia
Feita de carne e de veludo,
Ou verte enfim teu sono mudo
No vinho místico e disforme,
Volúpia, espectro multiforme!

Flores do Mal.
A Natureza do Homem
O Homem E a Natureza
O poeta e crítico francês Baudelaire marcou com sua presença as últimas décadas do século XIX, influenciando a poesia internacional de tendência simbolista. De sua maneira de ser, originaram-se na França os poetas “malditos”.
Baudelaire inventou uma nova estratégia de linguagem, incorporando a matéria da realidade grotesca a linguagem sublimada do romantismo, criando, dessa maneira, a poesia moderna.
Sua obra prima é o livro As Flores do Mal, cujos poemas mais antigos datam de 1841. Além de celeuma judicial, o livro despertou hostilidades na imprensa e foi julgado, na época, imoral.
Charles Baudelaire possui uma produção fortíssima que retrata a inquietude, o mal, o degredo e as paixões da alma humana. Sua vida sempre flutuou entre a noite, a boemia e paixões alucinantes. Poeta da vida e da alma humana, trouxe para os seus versos todos os prazeres que o homem pode desfrutar entre um e outro copo de vinho. As Flores do mal, sua obra prima, nos faz deparar com o limbo de cada uma de nossas almas, com o tédio de nossa existência, com o mesquinho de nossa essência, com a paixão do ser humano.
É preciso mergulhar nessa obra para descobrir quais são as flores que o “mal” produz.
Justificativa
Este trabalho fundamenta-se em Charles Baudelaire, em seus poemas catalogados em seu livro “Flores do Mal”. Como representante de um panorama cultural, que se mostrava nos idos de
Nesse sentido as Flores do Mal, aqui apresentadas em releitura analógica, mostram as sementes plantadas por um movimento desumano de uma visão fragmentada da vida, que cresceram e geraram um jardim de dor, sofrimento, solidão e barbárie no coração dos homens, os quais construíram seus próprios calabouços e escreveram sua própria destruição.
Objetivo
É o de alertar, provocar um olhar sobre um universo diferente daquele que estamos acostumados em nosso cotidiano. É o de mostrar que por detrás de uma beleza plastificada e perfeita, consumida dentro de um desejo irrefreado de consumir, escondem-se emoções que nos consomem, destruindo a nós e ao sistema ecológico como um todo.
Descrição
As Flores do Mal aparecem aqui como uma leitura plastificada dos poemas de Baudelaire, sem deixar a letra de lado, ou seja, os poemas acompanham a obra, como um grito de alerta aos danos causados a nossa natureza humana e a natureza externa. Os materiais utilizados para a confecção das expressões, são garrafas pets, garrafas de vidro, caixas de papelão, caixas de leite e de sucos longa vida, vidros de xampu e desodorante, garrafas de água mineral e roupas para dar o formato do humano. As formas aqui brincam com o rígido, a fixidez, o claro e o escuro, o desconforto e o conforto interno provocado pelas expressões. Brinca com o permanente e o impermanente. O material utilizado é inovador em forma e mistura, provocando mais uma provocação à procura de soluções inovadoras e humanas para velhos conceitos castradores. Esta exposição é um grito, um chamado a pulsão de vida do homem e para encarar sua sombra, sua pulsão de morte, que é onde paradoxalmente encontra-se a salvação para sua vida. O lixo produzido no mundo é usado para moldar o lixo da natureza humana, o nosso interior poluído que num relacionamento de equidade perfeita com o exterior suja a nossa sociedade e nosso ambiente. Mas esse mesmo lixo interior, estes mesmos fantasmas, também pode ser reciclado e se tornar nossa mais poderosa força humana, nossa mais poderosa força de vida e consequentemente, transformarem a nossa realidade exterior, afinal, “Quanto Pior Melhor”, e “Quanto Melhor Pior”. Somente quando soubermos realmente nosso poder de destruição é que poderemos transformá-lo em poder de construir a vida. Precisamos fazer isto no simbólico, na arte, nas nossas emoções, para não destruirmos o real. Tudo aquilo que não é simbolizado, que não é DITO, é agido, como disse Freud.
Saber de nossas forças destruidoras é preciso, falar disso é preciso, para que possamos fazer agir no amanhã um real iluminado, respirável e sadio para nossos filhos e nossos netos.